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BRASIL, Mulher, Portuguese, poesias, habitar casulos temporários,plantar árvores, metamorfoses



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       Desterro

     

      Teu canto

      Território de raiz

      No arquejo das estações.

     

      Em pousos irregulares

      Ouço o murmurar,

      Encosto a face

      Ao solo ancestral

      Ressoando a língua,

      Tateando no escuro

      A terra morada

      Gruta de movimentos

      Ondulantes no céu da boca.

     

      No corpo, entre fogos e canções,

      O rapto das danças selvagens

      Incessantes passos

      Erigem ruídos

      Nos refúgios do silêncio.

     

      Aqui se ilumina,

      O canto, alquimia

      Remota de um mar

      Indiviso rio.

     



    Escrito por Carolina de Bonis às 18h12
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       Rumo de abismos

     

      Subo degraus sem escada

      Ouso dissolver na memória

      Nossos toques indivisos.

      Me transmuto em muitas,

      E isso não é fácil,

      Como caminhar descalça

      Renascendo musgos

      Ervas dentre os pés

      Desenhando caminhos

      À possível lunação

      Descascando aposentos

      Primitivas grutas

      Imersas embarcações

      Interiores em frestas.

     

      Faço um pacto com a dor

      Reinvento a casa

      Crio um outro ritmo

      Na transparência

      Ao avesso do vento

      Que balança as raízes

      Fora da terra.

     

      Adentro em mim

      Com vendas nos olhos

      Ainda que não tenha

      Labirintos previsíveis

      Me renasço na beira

      De abismos.

     

     



    Escrito por Carolina de Bonis às 18h11
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    Hábito-terra

     

    Do outro lado, te possuo.

    Ensaio linhas dorsais

    para amarrar tuas vozes rupestres.

    Costurar no solo rachado os passos

    em volta, qual rasgo de raiz

    mais profunda.

     

    A ida será um regresso.

    Desse lado, avesso

    do traço na linha.

     

    Os contornos da carne

    habitando os limites do corpo

    o gozo da terra.

    Teu corpo, agora,

    nos guizos do vento.

     

    Ao solo o mínimo irromper

    do desejo remoto num som

    de terra conduz à memória

    ao breve esquecimento.

     

    Entorna o tom

    e floresce, as flores não cercam conceitos

    não medem arestas ao silêncio,

    se fiam na solidão de estadas secretas.



    Escrito por Carolina Bonis às 17h14
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    Sentenças de superfície

     

    No sólido da terra

    o visgo embrenha o saber

    obscuro da intensidade,

    percorrendo as pernas

    petrifica os meios.

     

    No erigir da pedra, range o romper

    da eternidade

    em mudos hinos interiores.

     

    Soletrados por mediações

    desgasta calada

    as sentenças

    de um dia

    como se soubesse

    aparente

    na quase informe-suspensa

    superfície de musgos.

     

    Cerra os olhos

    no ritmo deixado

    na contemplação da terra,

    no espaço e tempo que percorre.

     

    O destino é o mistério

    da estada alada

    elevando à eternidade.

     



    Escrito por Carolina Bonis às 17h11
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      Há mais cores nas primeiras
      límpidas camadas esverdeadas.
      O sabor vem da terra com o vento
      esvai, como num zunir
      nas vésperas da manhã
      ao nascerem grafias num alfabeto mudo.



    Escrito por Carolina Bonis às 19h38
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    E prenhe de inspiração
    Ao toque de pêra nos lábios
    Semear os cílios afogados
    No improviso de dois lados
    : o olhar
    Num sopro atende ao lado da alma
    semi-nítida sendo.
    Cada gesto no ar é mais enigmático
    Do que as palavras que se fazem nas curvas
    Em movimentos lentos suavizar
    O ser em sua serpente de cascatas
    Vermelho alaranjada
    Dentro do território o contorno da harpa
    Na morada de grotas
    Ousar sair do casulo.



    Escrito por Carolina Bonis às 18h34
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    A aparência imóvel
    de um entardecer
    passa em vitrais
    ergue distâncias
    na terra alimentando
    os mitos as origens
    noutra morada mineral
    da almas cheias de cortes.
    Manchas em valsas
    no dia em que nada condensa
    as voltas do traço.

    Qual tempo de tudo passar
    ao dizer: feridas são as palavras
    subtraidas dos esquecimentos
    ao deixarem suspensas
    esse gesto
    das palavras rompendo a pele
    de um entardecer.



    Escrito por Carolina Bonis às 18h32
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    Tantas em mim sou
    Ainda que uma sangre ou seque
    há na outra a voz do metal
    que transpassa dentro
    nos ramos da voz
    entre parênteses líquidos.
    Da água de cântaro,
    da água de barro
    que molda e deforma dual
    o ser que carrega a cidade
    em seu ventre em espaços
    que atam outras ilhas.



    Escrito por Carolina Bonis às 18h31
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    Olho no olho
    alquimia das horas
    onde algum pressentimento
    suaviza quem não fui.
    Agulhas cegas cerzindo os desgastes
    prenhes de tudo, um rumor
    que deixaria de ouvir
    rumo as margens.
    Eu se nego, espalho
    em areia esse
    ser marítimo
    em rochas em pedras
    ressoando entre dentes
    saliva de duas metades.
    Essa língua possui os dizeres.
    Ele um amigo antigo da alma.
    Quando ainda poderia abrir as janelas
    ao ouvir as mesas postas de café
    os lugares em que os destinos inalteram,
    entre os barulhos das xícaras.
    Num rasgo o princípio se desfaz
    E é inútil dizer.
    Esperar como um gesto.
    Inútil dizer
    o lado de cá
    seu olhar que atenta e deriva
    que tem no abandono das coisas
    o silencio maior, tão estranho
    do mesmo jogo calmo e místico.



    Escrito por Carolina Bonis às 18h31
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                Liberdade no azul do pano

                pouso sereno em que a luz

                atraiçoa o desejo,

                cerco de fios internos

                como Estige, corria sem

                direção e retornava,

                traçava o mesmo caminho

                levando consigo destinos.

                Histórias de nascentes são mitos

    que carrego no ventre.

                O condão de me despossuir nas correntezas,

                na certeza do filho perdido

                a espera que funda a paciência.

                Para a casa o porto de cada objeto,

    a sala de jantar, a ossadura

    das cadeiras  na espera de um corpo.

                Para qualquer pouso a fuga

                tranqüila do pensamento do que imóvel

    cristaliza em corpo, miragem e cor.

     



    Escrito por Carolina Bonis às 13h17
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     Veia Rosa Crepom

     

    Vá vento, vaguear pelos
    vestíbulos rosa crepom
    volte e arremesse, teu ventre, de delírios
    ao mar aberto. Ouça, o ruído isolado
    concreto após o contorno do silêncio

    branco e fino o contorno
    do poeta com a alma cheia de ondas
    desaguando no papel.



    Escrito por Carolina Bonis às 20h10
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    Na fotografia a montanha e a lagoa
    as curvas das margens
    não são istmos geográficos
    cada margem não minimiza a mania
    de querer extravasar.
    Fácil nesse impulso sobrepor asas
    em algum medo transformado
    sobrepor desejos sempre destoantes.
    Quando não se olha pela cidade
    e os distraídos atravessam
    a cidade que alguma vez morei
    e hoje desatenta em mim somente passo.



    Escrito por Maria Carolina Bonis às 19h10
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    Quando uma asa cai

    cessa na ardência líquida
    misturas tênues
    do último irromper

    do gesto. Percorro o vento, 
    vôo por fora do fio
    e preparo as sequências por tudo

    que fomos. Fósseis enterrados
    na floresta deserta, oásis, os ossos

    contando aos arqueólogos histórias.
    Entre papiro o mapa por onde as conchas

    soletravam segredos de antigamente.

    Vê-la imóvel retendo a fina membrana,

    aspirando cristais na raiz do mesmo

    desejo orgânico. Amanhece rosa
    a miragem nesse horizonte, pelo
    choque

    de duas estações faz-se casulo o arco.
    Faz-se manhã e embranquece e abre tua voz

    que canta pelas frestas do espaço.

     



    Escrito por Carolina Bonis às 17h27
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      Temia descortinar das latitudes 

      suas não-compreensões

      do precipício 
      no primeiro véu vertigem
      cetim de luz desdobrada
      pelas cores do metal nas horas.

      Os olhos cerram
      e preservam o gosto de antes,

      aquela loucura de esquecer-se
      em algum outro vento, negar

      passagens, caminhos atravessados que não

      os teus mesmos passos de antes.  

     

     



    Escrito por Carolina Bonis às 17h16
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    Em mim o outro lado
    metade enigma quando do atlas
    os países me acobertam em ruas
    embandeiradas de meus refúgios.
    O gosto de nata nas algas de alguns sonhos,
    como se ao abrir a janela as neblinas fossem
    respostas das antigas máscaras, da sinceridade
    amanhecendo azul e alguma ilusão de calma
    recordasse a expressão branca do último personagem
    que morreu em mim. Antes da gaveta aberta o outono
    quase-memória escorrendo por tudo que ainda não fui,
    mas é vida esse elo perdido, dentro de mim o rosto
    a espera da mão que adormecerá meu sonho.

     



    Escrito por Carolina Bonis às 17h08
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            Ciscos vegetais na índole

            violeta semeiam

            partidas.

            Múltiplo será não retornar

            a guisa de ramas

            ao coração.

            Seca a ferida por séculos

            estilhaçados

            do que não se concretiza:

            depois da tempestade

            pousa leve uma folha no chão

            e tudo parece calmo

            pela superfície do tempo

            que corre e deriva

            a matéria que é fonte.

            Retiro de suas margens

            o que faz parte de mim:

            sereias, castelos, borboletas e jasmins.

            Entre as entranhas essa nitidez

            de ter nas mãos a luz

            do girassol que se estende ao redor

            e o mundo a tecer nas teias partes

            que nascem do oculto a fronte:

            a semente que se dilui no véu da noite.

      



    Escrito por Carolina Bonis às 10h41
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    Perdoar ao que cristaliza

    a palma e excede a mão

    libélula-alma

    modulando a tarde

    desabrochada em pássaro.

    Estranho a concha cegamente

    abrir o dia em luz

    arder o coração e manhãs

    ao despedaço de pequenos

    passos nos ossos da preguiça.

    Preescrever nas madeiras

    o traço desfeito

    da infância em antigos quintais

    no ombro conchas

    de pêssegos,

    sonhos arrefecidos por chuvas

    nas asas de cílios.

     

     



    Escrito por Carolina Bonis às 16h45
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      olhos nu espreitam

      espirais giratórias

      tonteio dentro

      do corpo

      do gesso dos sentidos

      do branco

      da tela  (a pele

      sangrada em

      varais de borboletas)

      engrena poemas

      nos dedos

      na alma do papel

      nas raízes

      dos cabelos.

     

      trança entrança

      os dedos

      no tronco do acaso

      entremesis

      em ida fui sida

      na cidra

      no peixe

      na água-viva

      no retrato roto

      colado roxo

      em novas ramificações.

      

      lírios estancam

      paisagem e sertão

      o hábito emaranhado

      em rachaduras

      por elas escuro,

      seco como pupila

      em brisa,

      mapas em papiro

      carvão pedras

      jasmins, musgos

      borboletas

      cada coisa em seu

      concerto

      só minha alma

      sem conserto vai

      mais fundo.

     

      o meu país

      é de inutilidades.

      coisas presas em barbantes

      se desprendem tênues

      crianças fazem geografia

      na sinfonia melancólica

      do vento.

     

     



    Escrito por Carolina Bonis às 21h12
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      Noite esparsa dos passos

      em volta. Desvencilha

      me das malhas o sono.

      Quase tudo dói: estranho

      aceitar teus olhos percorrendo

                                 meus sonhos.

      Quase sempre febris

      os passos fora do dia.

      Agarrava-me pelas raízes,

      sempre decompunha-se

      solta a notícia de nossa

                                 perenidade.

      Após a curva a chegada

      da memória com o vento.

      As feridas cicatrizavam

      antes de imaginar os antepassados.

     



    Escrito por Carolina Bonis às 16h52
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      A fruta apodrece (não que eu

      assim quisesse) como vão de

      escada e escuridão. Vivo

      onde as moscas contornam

      minha ausência.

      A rosa murcha. Estaria a dois

      passos do que tem sido.

      Nem que colhesse o sêmen

      em tempo de contemplação

      o que regressa estaria

      em decomposição.

     



    Escrito por Carolina Bonis às 16h51
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      Onde fundo vai o vôo

      vou junto com suas asas.

      Onde partes aponto

      o sentido para navegar

                               em tuas veias.

      a teia para tecer teus

                               navios.

      miragens (de ir além) mais

      alto onde dói a ferida

      do pássaro de pedra.

     



    Escrito por Carolina Bonis às 16h50
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        Dor em cristal carvão

        passos de terra firme

        pelas raiadas do chão, sigo

        sem saber dos resíduos

        de rastro algum onde

        arrasto a memória.

     

     

     

     

            Queria, amor, falar de mim nas sombras dos castanheiros de setembro, trançando os cabelos, e caminhar engolindo as raiadas de sol para aglutinar meu medos mais recentes, e estremecer meus passos sem naus, porque não sendo eu  queria escrever de mim, de minhas máscaras coberta de lamas, mas o caminho percorre teus passos, e são das pedras que desvio enquanto a lama cobre o meu corpo, do abandono, das vazantes da alma, de vazies, das sendas. E porque tantas rachaduras no vidro de teu retrato no fundo do armário, olho e relembro, do vestido azul de tule marcado na saia com a terra vermelha. De qual nome? De tua infância, no invisível que pousa a teu lado buscando nomes (a luz te acompanha?). E tu sabias, amor, de minha cegueira silenciosa, de minha mania de tatear as dobraduras do branco da folha, dos livros espalhados pelo chão da casa, de meu instante embebido assim em, numa quase semelhante ausência de estar, e sabias que eram meus artifícios para não enlouquecer, e porque me perguntava se sabias, e lhe digo sem ressentimento que era essa minha mania de procurar sentidos nas coisas, sem denúnciar ao medo.

     



    Escrito por Carolina Bonis às 20h40
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      Pedras entornam

      Teu canto ao ar de

      Estações postiças.

      Teu retrato relembra:

      as mobílias, casas que morei

      Acaricia-me tua máscara

      Hoje, meu espelho está vazio.

     

      Ela me apanha em relances

      Conjuga-me em silencio

      e soletra as placentas re

      colhidas

     

      ao canto do deserto

      na mesma margem

      que caminha a

      semelhança secando

      meus contornos.



    Escrito por Carolina Bonis às 18h45
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            Outubro: sombras instaladas nas folhagens dos castanheiros, lembranças debruçadas na janela, velhas crônicas de jornal na gaveta germinam um verde amarelismo em meus personagens de papel, não fui forte em minha confissão para não se emaranhassem nos fios da narrativa, dissolvidos nos cabelos desfizeram-se em branco, silenciaram como os passos aproximados do rio deram vazante as enchentes, não existem, apodrecidos na lama se quer um corpo surge do escuro. Não tive coragem para suas companhias.     

     

            Novembro: a saudade. a saudade. meu corpo resvala e sei qual caminho seguir ao te tocar. risco os passos afora, pela vidraça, em signo amanhecido transponho aquáticos. estremeço ao toque do despertador e ouço teus chinelos arrastando pela casa, vítreas embarcações, porta a fora, portas e ruas. derivo numa realidade que me pede inteira, assim como minhas primas esperavam um amor inteiro só por curiosidade, eu espero para não dissipar neblina nas nuvens, os navios na minha veia de sangue. E há jasmins e as acácias derramando o pólen e nascendo nas veias mistérios.  flores por dentro. flores que cicatrizam.

     

            Dezembro: Nossas flores não existiram. Foram fictícias.



    Escrito por Carolina Bonis às 18h40
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             Parênteses servem ao natural de lagoas, mas palavras não se restam a um poço, definem na alma algas marítimas, mergulham mais fundo.

            A superfície ultrapassa cavam os musgos dos olhos, menina, falar é se revelar sair de seu contorno de primavera, chover nas sílabas do teu nome agarrando a superfície do vestido, mas calar é vestir o mundo em si por precipitação, alguma distância relembra palavras...a outra quer-se cinzas.

            Esboços refeitos rarefeitos no ar com o contorno dos dedos na atmosfera, com o contorno da infância, e tudo esvai feito onda feito gaivota circulando o céu, formando cidades e interiores. Navegam em barquinhos de papel as cartas nunca entregues e os silêncios amanhecidos nos orvalhos.

            Tudo tarda o que fica são os lençóis desarrumados, o pão fresco, o cheiro de café, os sonhos por despertar, a letra que espera  papel,  a cidade que não se levanta mais cedo e a voz do samba  finda no fundo do armário.

     



    Escrito por Carolina Bonis às 15h19
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            Não nego ao dia o sabor do instante lívido, do gesto audaz, não adormeço suspensa nos segundos, numa passagem platônica das horas. Concentro-me em cada linha, nas águas vertentes no traço do destino, rego meu vaso de tulipa com metáforas eternas, até que a tesoura da vida me surpreende em alegorias, num outro lado atada por linhas passo a  contemplar sombras.



    Escrito por Carolina Bonis às 14h42
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               Apenas um jeito para amar

              A saia circula rodopia e o vento carrega regatos de luzes que refluem ao infinito da minha alma ecoando azuis.

    Apenas um jeito para amar

    Rasgar os invólucros da pele

    Para aceitar e ser, não um outro,

    Mas a si mudo no medo indecifrável

    Na hipnose que transfere

    Ao vapor d'água a nuvem espessa

    Num repente, num instante ao avesso

    Quando as estações perderam

    Seu ritmo natural

    E tu dissestes amanhã talvez o tempo mude

    Suspirou breve, distraído,

    Num tom sem profecia, quem sabe milagre.

    É lento, leve e miúdo

    O que não se diz mas pressente

    Um grão de eternidade

    Num apenas jeito de calar

    Continuar num tempo imóvel

    Suspenso das coisas que passam

    Das criaturas que passam

    Na verdade que possa expressar

    Que a verdade do ser é ter-sido.



    Escrito por Carolina Bonis às 14h39
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                                              (Dali)

     

                

     Eram musgos que cerziam as imagens na superfície da pedra branquejando neblina sobre a cisma cintilante, os ares dela ainda tinham o cuidado de esconder os pedaços estilhaçados do espelho para que ele não a visse por inteira se pudesse apenas nos detalhes e assim no germinar dos dias interrompidos. Na verdade, sua imagem ao contrário de si denunciaria seus engenhos de horta, deixados para observar os descuidos da vida, o sofrimento, do assim de nosso primeiro encontro em que as águas eram elegias nas rochas e tudo como no primeiro dia da criação. Mistério meu e quem mais habitaria? A dor já se espalhara pelas roupas, pelo vestido de primavera habitando-a como se fosse um corpo, na luta de querer estar onde eu estivesse (ao menos dentro de mim), mas seus passos percorrendo o assoalho, seus passos no ranger da porta que eram os meus, em quais caminhos? Sigo.

     

     

    encorpada em vácuo de pedra

    pela perda da memória:

    esqueço a paisagem

    da superfície da pedra; musgos crescem

    na seiva encostando o ventre

    no vento da pele.

     

    nenhuma bolha de sal cicatriza,

    pelo sal ardem-se mais as feridas.

    potencializa a dor e a visão delicadamente

    nas moléculas de átomo.

    desencobre os objetos das sombras

    que pendem silenciosas

    seivas, desde quando

    aprendi o sofrer e

    aprofundar pela superfície porosa rachaduras.

     

    largue a lâmina sem percorrer as pernas

    o fio escorrendo suave

    frestas de ilhas.

    no mistério de partículas

    o acalanto despedaçado

    do retorno para reiventar a pele.

     

     

    No sólido da terra embrenhava-se como se alguma forma e nela percorresse a aldeia, na superfície da perna a grama viçosa e ela quase a atingir a intensidade. Francamente, diria, tenho medo e nas despedidas deixadas interrompidas.Só ela saberia da dor que rangesse o rompimento. E o medo a transformara numa massa confusa sem saber o que fazer além de lembrar, soletrar a memória da menina com dez anos descascando batatas com a mãe de xale de lã nas costas nos hinos interiores como as mulheres que sentem a alegria e ela muda preferindo aquela vida de mortes, aqueles recolhimentos ao seguir suas buscas pelos passos da aldeia, desgastando o chão a perguntar onde estiverá, desinventando excesso de claridade dos olhos. Preferia, sim, as sombras da visão, das mãos retirando as algas de seus olhos e para as sentenças daqueles dias os dias aparentemente intocados e protegidos de musgos.



    Escrito por Carolina Bonis às 15h02
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                  Com o pano e a linha costuro na mente um túnel arcabouço subterrâneo arquejo nas cores sinais dos tecidos entrepostos por vozes oceânicas, desvendo segredos, estudo a história de civilizações passadas; Vou cerzindo a infância no algodão branco bordando as margens do pano em denúncias dos meus desajustes. Em esguelha da memória costuro ecos que clamam por uma paisagem, a agulha molda a alma como um ovo a sua clara de um profundo estado de feto. Costuro-me nos fragmentos da terra vermelha, em orvalho nas margens dos rios, pelas correspondências da vida, costuro-me no traço da agulha desvendando possibilidades na coisa, no mistério oculto dos objetos retiro o primeiro véu para avistar cores, em seguida as urgências de ser eu mesma de me transitar por meio aos sentidos.  

     



    Escrito por Carolina Bonis às 19h05
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      A concha desfia

      pérolas de luz no chão,

      o verbo molda o risco de antraz.

     

      Calado sinal do instante, suspenso

      na face do espelho gasto

      o oculto

     

      de orlas marítimas, insere

      orvalho em corte interno

      no sangue traduz-se à água

      o reflexo do segundo instante.

     

      Avisto a contra-posto

      o contorno de onde o outro

      lado da pele transpira

      da faca à alma.

     

      As horas secam

      nos olhos lágrimas,

      as raízes são as almas

      que não amanheceram.

     

      Gaivotas  colhem vôo

      em asas uterinas, pálpebras

      de silêncio roxo

      declinam certidões em rochas.

     

      A face se perde

      invisível, rouca

      em saliva que rasga

      o silêncio dos olhos.

     



    Escrito por Carolina Bonis às 18h19
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            Casulo

     

               Concha

                    a

                 Vida

       mergulhada em lama

       fruição sonata flux

       fúria afastada.

     

       Ed ascende da

       sede a concha.

       O ar imberbe

                              o bicho

     

       Na tarde

       que arde

                              mansa

     

       Conjunção

       de invisíveis as

       estética das impressões.

     

     

     

     

            Sol Posto

     

     

        O brilho se fecha

        O giz torna pétala

        O gesto contorna

        róseo azulado.

        Vence-se em seu colher.



    Escrito por Carolina Bonis às 17h13
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    a fronte da mulher decaí

    junto ao cabelo

    arruma nítido

    em vermelho

    as pétalas

    que cessam em melancolia.

     



    Escrito por Carolina Bonis às 18h45
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    releio Bandeira

    sem saudade

    do tempo que sentia

    o oceano cintilar,

    e no meu coração

    o pranto pela

    vida que se extinguia.

     



    Escrito por Carolina Bonis às 18h42
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    com o pó de giz

    corações acenam sem saber ao oceano se vão retornar,

                    se o gesto extinguirá em areia à brisa.

                    te procuro em lados

                    te encontro em minha pele transpirando sal,

                    cicatrizando feridas

                    no vento

                    te percebo pelo cheiro evocado 

                    a lembrança rasga um pedaço do meu dia para sobrepor outro:

                    inédita inaugura que palavras significam pelo som,

                    os espaços entre elas são vozes oceânicas.

     

     



    Escrito por Carolina Bonis às 18h40
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       Setembro

     

     

    compor azulejos

    com fragmentos

    da memória

    recolher suave

    esquecimentos

    quando tudo (seguro em essência)

    são cinzas.

     

    transpor ao nome

    à imensidão dos

    pássaros.

    recostar gaivotas

    em troncos

    palavras em

    asas

    aves em

    ninhos.

     

     



    Escrito por Carolina Bonis às 19h10
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    Um vento esfoliando rasteiro no chão

    Num gesto onde o perfume das folhas se renova

    Na fragilidade do que pende e nos é anterior.

     

    Escrever é seguir ao avesso

    a mesma curva os passos

    manter o relógio quebrado,

    deixar que o amanhecer vença o noturno.

    Cheia de cortes as armadilhas da terra,

    qual sertão, pétalas, pedras, bandeiras,

    ameixas ou seiva mais audíveis?

    Quando o lastro decai nas águas

    arrasta o que ficou para trás.

     

    Navegação Interior

    Pouso mediante

    Um porto sem naus

    Para nunca estar

    Senão distante de mim.

     

    À deriva vento leste

    Embarcações além

    Distende móvel

    Em alcance da flecha

    Que atiça o olhar.

     

    Meu desejo por uma aldeia

    Guiando astrolábio

    Meu desejo por arredores

    Arrefecidos por latitudes

    E labirintos.

     

    O mapa em ervas

    Caligrafadas no branco

    Dos murais

    Nas grotas da memória

    Cada desenho principia

    O traço iniciático das águas.

     

    Pouso entre margens

    Travessia

    Da jóia que se abre

    Em léguas.

     

     



    Escrito por Carolina Bonis às 20h23
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                  Anoiteço para banhar-me em reflexos das sombras. Cai a essência da flor leve no chão, o jarro presta-se ao equilíbrio de um desenho chinês, o sol deposita sua claridade ondulante na cortina no quarto. Sei que se fará noite pelo oval da voz ressurgindo circunscrita em meu medo mais intrínseco. Flutua pela vida o risco de viver. Aceito como quem aceita delicadamente o corte que fará escorrer sangue. Aceito, atravesso o destino do rio, mas perco as mãos de quem esperava, retorno vazia, por um risco, uma ferida e um sopro de orvalho incolor. Em corpo de terra deixo-me como meu pai, na distância, ausente, emitindo sinais de algas às madeiras silenciosas, aos papéis e aos livros, enquanto os cabelos das filhas cresciam predispostos a raízes. Espero prestes a ostras um pensamento de atalhos a alma para o púrpuro da noite percorrer as passagens subterrâneas das vozes liquefeitas derramadas em torno de sombras. Essas que nos vem em acordes de dádivas.

     



    Escrito por Carolina Bonis às 16h24
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                         Silêncio

     

     

    cartas entregues no papel de nuanças amarelecidas

    desgastes do passado, revelando denúncias

    feridas abertas da mulher em seu eterno recolher-se

    invisível do casulo de medos retraídos

     

    gestos e frases não ditas

    por amanhãs guardados em gavetas

    estátuas de sal desfeitas pelo vento

     

    esboços refeitos

    invisíveis sons da lembrança

    espaço de uma palavra e outra

    distância

     

    qual cor subterrânea em passagens

    (vermelhas) de vozes oceânicas.

     

     



    Escrito por Carolina Bonis às 19h01
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