
Desterro Teu canto Território de raiz No arquejo das estações. Em pousos irregulares Ouço o murmurar, Encosto a face Ao solo ancestral Ressoando a língua, Tateando no escuro A terra morada Gruta de movimentos Ondulantes no céu da boca. No corpo, entre fogos e canções, O rapto das danças selvagens Incessantes passos Erigem ruídos Nos refúgios do silêncio. Aqui se ilumina, O canto, alquimia Remota de um mar Indiviso rio.
Escrito por Carolina de Bonis às 18h12
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Rumo de abismos Subo degraus sem escada Ouso dissolver na memória Nossos toques indivisos. Me transmuto em muitas, E isso não é fácil, Como caminhar descalça Renascendo musgos Ervas dentre os pés Desenhando caminhos À possível lunação Descascando aposentos Primitivas grutas Imersas embarcações Interiores em frestas. Faço um pacto com a dor Reinvento a casa Crio um outro ritmo Na transparência Ao avesso do vento Que balança as raízes Fora da terra. Adentro em mim Com vendas nos olhos Ainda que não tenha Labirintos previsíveis Me renasço na beira De abismos.
Escrito por Carolina de Bonis às 18h11
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Hábito-terra
Do outro lado, te possuo.
Ensaio linhas dorsais
para amarrar tuas vozes rupestres.
Costurar no solo rachado os passos
em volta, qual rasgo de raiz
mais profunda.
A ida será um regresso.
Desse lado, avesso
do traço na linha.
Os contornos da carne
habitando os limites do corpo
o gozo da terra.
Teu corpo, agora,
nos guizos do vento.
Ao solo o mínimo irromper
do desejo remoto num som
de terra conduz à memória
ao breve esquecimento.
Entorna o tom
e floresce, as flores não cercam conceitos
não medem arestas ao silêncio,
se fiam na solidão de estadas secretas.
Escrito por Carolina Bonis às 17h14
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Sentenças de superfície
No sólido da terra
o visgo embrenha o saber
obscuro da intensidade,
percorrendo as pernas
petrifica os meios.
No erigir da pedra, range o romper
da eternidade
em mudos hinos interiores.
Soletrados por mediações
desgasta calada
as sentenças
de um dia
como se soubesse
aparente
na quase informe-suspensa
superfície de musgos.
Cerra os olhos
no ritmo deixado
na contemplação da terra,
no espaço e tempo que percorre.
O destino é o mistério
da estada alada
elevando à eternidade.
Escrito por Carolina Bonis às 17h11
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Há mais cores nas primeiras límpidas camadas esverdeadas. O sabor vem da terra com o vento esvai, como num zunir nas vésperas da manhã ao nascerem grafias num alfabeto mudo.
Escrito por Carolina Bonis às 19h38
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E prenhe de inspiração Ao toque de pêra nos lábios Semear os cílios afogados No improviso de dois lados : o olhar Num sopro atende ao lado da alma semi-nítida sendo. Cada gesto no ar é mais enigmático Do que as palavras que se fazem nas curvas Em movimentos lentos suavizar O ser em sua serpente de cascatas Vermelho alaranjada Dentro do território o contorno da harpa Na morada de grotas Ousar sair do casulo.
Escrito por Carolina Bonis às 18h34
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A aparência imóvel de um entardecer passa em vitrais ergue distâncias na terra alimentando os mitos as origens noutra morada mineral da almas cheias de cortes. Manchas em valsas no dia em que nada condensa as voltas do traço.
Qual tempo de tudo passar ao dizer: feridas são as palavras subtraidas dos esquecimentos ao deixarem suspensas esse gesto das palavras rompendo a pele de um entardecer.
Escrito por Carolina Bonis às 18h32
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Tantas em mim sou Ainda que uma sangre ou seque há na outra a voz do metal que transpassa dentro nos ramos da voz entre parênteses líquidos. Da água de cântaro, da água de barro que molda e deforma dual o ser que carrega a cidade em seu ventre em espaços que atam outras ilhas.
Escrito por Carolina Bonis às 18h31
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Olho no olho alquimia das horas onde algum pressentimento suaviza quem não fui. Agulhas cegas cerzindo os desgastes prenhes de tudo, um rumor que deixaria de ouvir rumo as margens. Eu se nego, espalho em areia esse ser marítimo em rochas em pedras ressoando entre dentes saliva de duas metades. Essa língua possui os dizeres. Ele um amigo antigo da alma. Quando ainda poderia abrir as janelas ao ouvir as mesas postas de café os lugares em que os destinos inalteram, entre os barulhos das xícaras. Num rasgo o princípio se desfaz E é inútil dizer. Esperar como um gesto. Inútil dizer o lado de cá seu olhar que atenta e deriva que tem no abandono das coisas o silencio maior, tão estranho do mesmo jogo calmo e místico.
Escrito por Carolina Bonis às 18h31
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Liberdade no azul do pano
pouso sereno em que a luz
atraiçoa o desejo,
cerco de fios internos
como Estige, corria sem
direção e retornava,
traçava o mesmo caminho
levando consigo destinos.
Histórias de nascentes são mitos
que carrego no ventre.
O condão de me despossuir nas correntezas,
na certeza do filho perdido
a espera que funda a paciência.
Para a casa o porto de cada objeto,
a sala de jantar, a ossadura
das cadeiras na espera de um corpo.
Para qualquer pouso a fuga
tranqüila do pensamento do que imóvel
cristaliza em corpo, miragem e cor.
Escrito por Carolina Bonis às 13h17
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Veia Rosa Crepom
Vá vento, vaguear pelos vestíbulos rosa crepom volte e arremesse, teu ventre, de delírios ao mar aberto. Ouça, o ruído isolado concreto após o contorno do silêncio
branco e fino o contorno do poeta com a alma cheia de ondas desaguando no papel.
Escrito por Carolina Bonis às 20h10
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Na fotografia a montanha e a lagoa as curvas das margens não são istmos geográficos cada margem não minimiza a mania de querer extravasar. Fácil nesse impulso sobrepor asas em algum medo transformado sobrepor desejos sempre destoantes. Quando não se olha pela cidade e os distraídos atravessam a cidade que alguma vez morei e hoje desatenta em mim somente passo.
Escrito por Maria Carolina Bonis às 19h10
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Quando uma asa cai
cessa na ardência líquida misturas tênues do último irromper
do gesto. Percorro o vento, vôo por fora do fio e preparo as sequências por tudo
que fomos. Fósseis enterrados na floresta deserta, oásis, os ossos
contando aos arqueólogos histórias. Entre papiro o mapa por onde as conchas
soletravam segredos de antigamente.
Vê-la imóvel retendo a fina membrana,
aspirando cristais na raiz do mesmo
desejo orgânico. Amanhece rosa a miragem nesse horizonte, pelo choque
de duas estações faz-se casulo o arco. Faz-se manhã e embranquece e abre tua voz
que canta pelas frestas do espaço.
Escrito por Carolina Bonis às 17h27
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Temia descortinar das latitudes
suas não-compreensões
do precipício no primeiro véu vertigem cetim de luz desdobrada pelas cores do metal nas horas.
Os olhos cerram e preservam o gosto de antes,
aquela loucura de esquecer-se em algum outro vento, negar
passagens, caminhos atravessados que não
os teus mesmos passos de antes.
Escrito por Carolina Bonis às 17h16
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Em mim o outro lado metade enigma quando do atlas os países me acobertam em ruas embandeiradas de meus refúgios. O gosto de nata nas algas de alguns sonhos, como se ao abrir a janela as neblinas fossem respostas das antigas máscaras, da sinceridade amanhecendo azul e alguma ilusão de calma recordasse a expressão branca do último personagem que morreu em mim. Antes da gaveta aberta o outono quase-memória escorrendo por tudo que ainda não fui, mas é vida esse elo perdido, dentro de mim o rosto a espera da mão que adormecerá meu sonho.
Escrito por Carolina Bonis às 17h08
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Ciscos vegetais na índole
violeta semeiam
partidas.
Múltiplo será não retornar
a guisa de ramas
ao coração.
Seca a ferida por séculos
estilhaçados
do que não se concretiza:
depois da tempestade
pousa leve uma folha no chão
e tudo parece calmo
pela superfície do tempo
que corre e deriva
a matéria que é fonte.
Retiro de suas margens
o que faz parte de mim:
sereias, castelos, borboletas e jasmins.
Entre as entranhas essa nitidez
de ter nas mãos a luz
do girassol que se estende ao redor
e o mundo a tecer nas teias partes
que nascem do oculto a fronte:
a semente que se dilui no véu da noite.
Escrito por Carolina Bonis às 10h41
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Perdoar ao que cristaliza
a palma e excede a mão
libélula-alma
modulando a tarde
desabrochada em pássaro.
Estranho a concha cegamente
abrir o dia em luz
arder o coração e manhãs
ao despedaço de pequenos
passos nos ossos da preguiça.
Preescrever nas madeiras
o traço desfeito
da infância em antigos quintais
no ombro conchas
de pêssegos,
sonhos arrefecidos por chuvas
nas asas de cílios.
Escrito por Carolina Bonis às 16h45
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olhos nu espreitam
espirais giratórias
tonteio dentro
do corpo
do gesso dos sentidos
do branco
da tela (a pele
sangrada em
varais de borboletas)
engrena poemas
nos dedos
na alma do papel
nas raízes
dos cabelos.
trança entrança
os dedos
no tronco do acaso
entremesis
em ida fui sida
na cidra
no peixe
na água-viva
no retrato roto
colado roxo
em novas ramificações.
lírios estancam
paisagem e sertão
o hábito emaranhado
em rachaduras
por elas escuro,
seco como pupila
em brisa,
mapas em papiro
carvão pedras
jasmins, musgos
borboletas
cada coisa em seu
concerto
só minha alma
sem conserto vai
mais fundo.
o meu país
é de inutilidades.
coisas presas em barbantes
se desprendem tênues
crianças fazem geografia
na sinfonia melancólica
do vento.
Escrito por Carolina Bonis às 21h12
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Noite esparsa dos passos
em volta. Desvencilha
me das malhas o sono.
Quase tudo dói: estranho
aceitar teus olhos percorrendo
meus sonhos.
Quase sempre febris
os passos fora do dia.
Agarrava-me pelas raízes,
sempre decompunha-se
solta a notícia de nossa
perenidade.
Após a curva a chegada
da memória com o vento.
As feridas cicatrizavam
antes de imaginar os antepassados.
Escrito por Carolina Bonis às 16h52
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A fruta apodrece (não que eu
assim quisesse) como vão de
escada e escuridão. Vivo
onde as moscas contornam
minha ausência.
A rosa murcha. Estaria a dois
passos do que tem sido.
Nem que colhesse o sêmen
em tempo de contemplação
o que regressa estaria
em decomposição.
Escrito por Carolina Bonis às 16h51
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Onde fundo vai o vôo
vou junto com suas asas.
Onde partes aponto
o sentido para navegar
em tuas veias.
a teia para tecer teus
navios.
miragens (de ir além) mais
alto onde dói a ferida
do pássaro de pedra.
Escrito por Carolina Bonis às 16h50
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Dor em cristal carvão
passos de terra firme
pelas raiadas do chão, sigo
sem saber dos resíduos
de rastro algum onde
arrasto a memória.
Queria, amor, falar de mim nas sombras dos castanheiros de setembro, trançando os cabelos, e caminhar engolindo as raiadas de sol para aglutinar meu medos mais recentes, e estremecer meus passos sem naus, porque não sendo eu queria escrever de mim, de minhas máscaras coberta de lamas, mas o caminho percorre teus passos, e são das pedras que desvio enquanto a lama cobre o meu corpo, do abandono, das vazantes da alma, de vazies, das sendas. E porque tantas rachaduras no vidro de teu retrato no fundo do armário, olho e relembro, do vestido azul de tule marcado na saia com a terra vermelha. De qual nome? De tua infância, no invisível que pousa a teu lado buscando nomes (a luz te acompanha?). E tu sabias, amor, de minha cegueira silenciosa, de minha mania de tatear as dobraduras do branco da folha, dos livros espalhados pelo chão da casa, de meu instante embebido assim em, numa quase semelhante ausência de estar, e sabias que eram meus artifícios para não enlouquecer, e porque me perguntava se sabias, e lhe digo sem ressentimento que era essa minha mania de procurar sentidos nas coisas, sem denúnciar ao medo.
Escrito por Carolina Bonis às 20h40
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Pedras entornam
Teu canto ao ar de
Estações postiças.
Teu retrato relembra:
as mobílias, casas que morei
Acaricia-me tua máscara
Hoje, meu espelho está vazio.
Ela me apanha em relances
Conjuga-me em silencio
e soletra as placentas re
colhidas
ao canto do deserto
na mesma margem
que caminha a
semelhança secando
meus contornos.
Escrito por Carolina Bonis às 18h45
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Outubro: sombras instaladas nas folhagens dos castanheiros, lembranças debruçadas na janela, velhas crônicas de jornal na gaveta germinam um verde amarelismo em meus personagens de papel, não fui forte em minha confissão para não se emaranhassem nos fios da narrativa, dissolvidos nos cabelos desfizeram-se em branco, silenciaram como os passos aproximados do rio deram vazante as enchentes, não existem, apodrecidos na lama se quer um corpo surge do escuro. Não tive coragem para suas companhias.
Novembro: a saudade. a saudade. meu corpo resvala e sei qual caminho seguir ao te tocar. risco os passos afora, pela vidraça, em signo amanhecido transponho aquáticos. estremeço ao toque do despertador e ouço teus chinelos arrastando pela casa, vítreas embarcações, porta a fora, portas e ruas. derivo numa realidade que me pede inteira, assim como minhas primas esperavam um amor inteiro só por curiosidade, eu espero para não dissipar neblina nas nuvens, os navios na minha veia de sangue. E há jasmins e as acácias derramando o pólen e nascendo nas veias mistérios. flores por dentro. flores que cicatrizam.
Dezembro: Nossas flores não existiram. Foram fictícias.
Escrito por Carolina Bonis às 18h40
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Parênteses servem ao natural de lagoas, mas palavras não se restam a um poço, definem na alma algas marítimas, mergulham mais fundo.
A superfície ultrapassa cavam os musgos dos olhos, menina, falar é se revelar sair de seu contorno de primavera, chover nas sílabas do teu nome agarrando a superfície do vestido, mas calar é vestir o mundo em si por precipitação, alguma distância relembra palavras...a outra quer-se cinzas.
Esboços refeitos rarefeitos no ar com o contorno dos dedos na atmosfera, com o contorno da infância, e tudo esvai feito onda feito gaivota circulando o céu, formando cidades e interiores. Navegam em barquinhos de papel as cartas nunca entregues e os silêncios amanhecidos nos orvalhos.
Tudo tarda o que fica são os lençóis desarrumados, o pão fresco, o cheiro de café, os sonhos por despertar, a letra que espera papel, a cidade que não se levanta mais cedo e a voz do samba finda no fundo do armário.
Escrito por Carolina Bonis às 15h19
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Não nego ao dia o sabor do instante lívido, do gesto audaz, não adormeço suspensa nos segundos, numa passagem platônica das horas. Concentro-me em cada linha, nas águas vertentes no traço do destino, rego meu vaso de tulipa com metáforas eternas, até que a tesoura da vida me surpreende em alegorias, num outro lado atada por linhas passo a contemplar sombras.
Escrito por Carolina Bonis às 14h42
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Apenas um jeito para amar
A saia circula rodopia e o vento carrega regatos de luzes que refluem ao infinito da minha alma ecoando azuis.
Apenas um jeito para amar Rasgar os invólucros da pele Para aceitar e ser, não um outro, Mas a si mudo no medo indecifrável Na hipnose que transfere Ao vapor d'água a nuvem espessa Num repente, num instante ao avesso Quando as estações perderam Seu ritmo natural E tu dissestes amanhã talvez o tempo mude Suspirou breve, distraído, Num tom sem profecia, quem sabe milagre. É lento, leve e miúdo O que não se diz mas pressente Um grão de eternidade Num apenas jeito de calar Continuar num tempo imóvel Suspenso das coisas que passam Das criaturas que passam Na verdade que possa expressar Que a verdade do ser é ter-sido.
Escrito por Carolina Bonis às 14h39
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(Dali)
Eram musgos que cerziam as imagens na superfície da pedra branquejando neblina sobre a cisma cintilante, os ares dela ainda tinham o cuidado de esconder os pedaços estilhaçados do espelho para que ele não a visse por inteira se pudesse apenas nos detalhes e assim no germinar dos dias interrompidos. Na verdade, sua imagem ao contrário de si denunciaria seus engenhos de horta, deixados para observar os descuidos da vida, o sofrimento, do assim de nosso primeiro encontro em que as águas eram elegias nas rochas e tudo como no primeiro dia da criação. Mistério meu e quem mais habitaria? A dor já se espalhara pelas roupas, pelo vestido de primavera habitando-a como se fosse um corpo, na luta de querer estar onde eu estivesse (ao menos dentro de mim), mas seus passos percorrendo o assoalho, seus passos no ranger da porta que eram os meus, em quais caminhos? Sigo.
encorpada em vácuo de pedra
pela perda da memória:
esqueço a paisagem
da superfície da pedra; musgos crescem
na seiva encostando o ventre
no vento da pele.
nenhuma bolha de sal cicatriza,
pelo sal ardem-se mais as feridas.
potencializa a dor e a visão delicadamente
nas moléculas de átomo.
desencobre os objetos das sombras
que pendem silenciosas
seivas, desde quando
aprendi o sofrer e
aprofundar pela superfície porosa rachaduras.
largue a lâmina sem percorrer as pernas
o fio escorrendo suave
frestas de ilhas.
no mistério de partículas
o acalanto despedaçado
do retorno para reiventar a pele.
No sólido da terra embrenhava-se como se alguma forma e nela percorresse a aldeia, na superfície da perna a grama viçosa e ela quase a atingir a intensidade. Francamente, diria, tenho medo e nas despedidas deixadas interrompidas.Só ela saberia da dor que rangesse o rompimento. E o medo a transformara numa massa confusa sem saber o que fazer além de lembrar, soletrar a memória da menina com dez anos descascando batatas com a mãe de xale de lã nas costas nos hinos interiores como as mulheres que sentem a alegria e ela muda preferindo aquela vida de mortes, aqueles recolhimentos ao seguir suas buscas pelos passos da aldeia, desgastando o chão a perguntar onde estiverá, desinventando excesso de claridade dos olhos. Preferia, sim, as sombras da visão, das mãos retirando as algas de seus olhos e para as sentenças daqueles dias os dias aparentemente intocados e protegidos de musgos.
Escrito por Carolina Bonis às 15h02
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Com o pano e a linha costuro na mente um túnel arcabouço subterrâneo arquejo nas cores sinais dos tecidos entrepostos por vozes oceânicas, desvendo segredos, estudo a história de civilizações passadas; Vou cerzindo a infância no algodão branco bordando as margens do pano em denúncias dos meus desajustes. Em esguelha da memória costuro ecos que clamam por uma paisagem, a agulha molda a alma como um ovo a sua clara de um profundo estado de feto. Costuro-me nos fragmentos da terra vermelha, em orvalho nas margens dos rios, pelas correspondências da vida, costuro-me no traço da agulha desvendando possibilidades na coisa, no mistério oculto dos objetos retiro o primeiro véu para avistar cores, em seguida as urgências de ser eu mesma de me transitar por meio aos sentidos.
Escrito por Carolina Bonis às 19h05
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A concha desfia
pérolas de luz no chão,
o verbo molda o risco de antraz.
Calado sinal do instante, suspenso
na face do espelho gasto
o oculto
de orlas marítimas, insere
orvalho em corte interno
no sangue traduz-se à água
o reflexo do segundo instante.
Avisto a contra-posto
o contorno de onde o outro
lado da pele transpira
da faca à alma.
As horas secam
nos olhos lágrimas,
as raízes são as almas
que não amanheceram.
Gaivotas colhem vôo
em asas uterinas, pálpebras
de silêncio roxo
declinam certidões em rochas.
A face se perde
invisível, rouca
em saliva que rasga
o silêncio dos olhos.
Escrito por Carolina Bonis às 18h19
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Casulo
Concha
a
Vida
mergulhada em lama
fruição sonata flux
fúria afastada.
Ed ascende da
sede a concha.
O ar imberbe
o bicho
Na tarde
que arde
mansa
Conjunção
de invisíveis as
estética das impressões.
Sol Posto
O brilho se fecha
O giz torna pétala
O gesto contorna
róseo azulado.
Vence-se em seu colher.
Escrito por Carolina Bonis às 17h13
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a fronte da mulher decaí
junto ao cabelo
arruma nítido
em vermelho
as pétalas
que cessam em melancolia.
Escrito por Carolina Bonis às 18h45
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releio Bandeira
sem saudade
do tempo que sentia
o oceano cintilar,
e no meu coração
o pranto pela
vida que se extinguia.
Escrito por Carolina Bonis às 18h42
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com o pó de giz
corações acenam sem saber ao oceano se vão retornar,
se o gesto extinguirá em areia à brisa.
te procuro em lados
te encontro em minha pele transpirando sal,
cicatrizando feridas
no vento
te percebo pelo cheiro evocado
a lembrança rasga um pedaço do meu dia para sobrepor outro:
inédita inaugura que palavras significam pelo som,
os espaços entre elas são vozes oceânicas.
Escrito por Carolina Bonis às 18h40
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Setembro
compor azulejos
com fragmentos
da memória
recolher suave
esquecimentos
quando tudo (seguro em essência)
são cinzas.
transpor ao nome
à imensidão dos
pássaros.
recostar gaivotas
em troncos
palavras em
asas
aves em
ninhos.
Escrito por Carolina Bonis às 19h10
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Um vento esfoliando rasteiro no chão Num gesto onde o perfume das folhas se renova Na fragilidade do que pende e nos é anterior. Escrever é seguir ao avesso a mesma curva os passos manter o relógio quebrado, deixar que o amanhecer vença o noturno. Cheia de cortes as armadilhas da terra, qual sertão, pétalas, pedras, bandeiras, ameixas ou seiva mais audíveis? Quando o lastro decai nas águas arrasta o que ficou para trás. Navegação Interior
Pouso mediante Um porto sem naus Para nunca estar Senão distante de mim. À deriva vento leste Embarcações além Distende móvel Em alcance da flecha Que atiça o olhar. Meu desejo por uma aldeia Guiando astrolábio Meu desejo por arredores Arrefecidos por latitudes E labirintos. O mapa em ervas Caligrafadas no branco Dos murais Nas grotas da memória Cada desenho principia O traço iniciático das águas. Pouso entre margens Travessia Da jóia que se abre Em léguas.
Escrito por Carolina Bonis às 20h23
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Anoiteço para banhar-me em reflexos das sombras. Cai a essência da flor leve no chão, o jarro presta-se ao equilíbrio de um desenho chinês, o sol deposita sua claridade ondulante na cortina no quarto. Sei que se fará noite pelo oval da voz ressurgindo circunscrita em meu medo mais intrínseco. Flutua pela vida o risco de viver. Aceito como quem aceita delicadamente o corte que fará escorrer sangue. Aceito, atravesso o destino do rio, mas perco as mãos de quem esperava, retorno vazia, por um risco, uma ferida e um sopro de orvalho incolor. Em corpo de terra deixo-me como meu pai, na distância, ausente, emitindo sinais de algas às madeiras silenciosas, aos papéis e aos livros, enquanto os cabelos das filhas cresciam predispostos a raízes. Espero prestes a ostras um pensamento de atalhos a alma para o púrpuro da noite percorrer as passagens subterrâneas das vozes liquefeitas derramadas em torno de sombras. Essas que nos vem em acordes de dádivas.
Escrito por Carolina Bonis às 16h24
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Silêncio
cartas entregues no papel de nuanças amarelecidas
desgastes do passado, revelando denúncias
feridas abertas da mulher em seu eterno recolher-se
invisível do casulo de medos retraídos
gestos e frases não ditas
por amanhãs guardados em gavetas
estátuas de sal desfeitas pelo vento
esboços refeitos
invisíveis sons da lembrança
espaço de uma palavra e outra
distância
qual cor subterrânea em passagens
(vermelhas) de vozes oceânicas.
Escrito por Carolina Bonis às 19h01
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